Celebrado em 7 de setembro, o nascimento do Brasil como nação independente começou antes de 1822 e envolveu mulheres, homens, soldados, trabalhadores e comunidades

No dia 7 de setembro, o Brasil celebra um dos acontecimentos mais importantes de sua história: a separação política de Portugal e o início da trajetória do país como Estado independente. Em 2026, a data marca os 204 anos da Independência do Brasil, proclamada em 1822.
Embora o episódio às margens do riacho Ipiranga tenha se tornado o principal símbolo daquele momento, a Independência não aconteceu em apenas um dia nem foi resultado da decisão isolada de uma única pessoa. Ela foi construída ao longo de vários anos, por meio de mudanças econômicas, disputas políticas, manifestações populares, decisões diplomáticas e confrontos armados em diferentes regiões do território.
Compreender esse processo é reconhecer que a formação do Brasil envolveu personagens conhecidos, como Dom Pedro I, Dona Leopoldina e José Bonifácio, mas também contou com a participação de mulheres, negros, indígenas, militares, trabalhadores, religiosos e moradores de diversas províncias.
A chegada da Corte Portuguesa e as mudanças de 1808
Um dos principais acontecimentos que prepararam o caminho para a Independência ocorreu em 1808. Diante da invasão de Portugal pelas tropas de Napoleão Bonaparte, a família real portuguesa e parte da administração do reino transferiram-se para o Brasil, sob a proteção da Marinha britânica.
A presença da Corte no Rio de Janeiro alterou profundamente a condição da colônia. Uma das primeiras medidas tomadas por Dom João foi a abertura dos portos brasileiros às chamadas "nações amigas", encerrando parte das restrições comerciais que obrigavam o Brasil a negociar principalmente com Portugal.
Nos anos seguintes, foram criadas instituições fundamentais para o funcionamento administrativo e econômico do território, como a Imprensa Régia, o Banco do Brasil, a Real Academia Militar e outras estruturas de ensino, cultura, ciência e governo.
A própria cidade do Rio de Janeiro passou por uma rápida transformação. Segundo a linha do tempo oficial do Bicentenário da Independência, sua população cresceu de aproximadamente 60 mil habitantes, em 1808, para 112 mil, em 1821. Governo Federal
- Linha do Tempo da Independência
Essas mudanças contribuíram para que o Brasil deixasse de funcionar apenas como uma colônia subordinada e passasse a sediar a administração do Império Português.
Brasil é elevado à condição de Reino
Em 1815, o Brasil foi elevado à condição de Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. A medida colocou formalmente o território brasileiro em posição política equivalente à de Portugal dentro da monarquia.
O Rio de Janeiro tornou-se a capital do Reino Unido e sede do governo português. Quando Dona Maria I morreu, em 1816, o príncipe regente foi coroado como Dom João VI.
A elevação à categoria de reino fortaleceu grupos políticos e econômicos estabelecidos no Brasil. Por isso, quando Portugal tentou recuperar o controle direto sobre o território, encontrou resistência entre aqueles que temiam perder a autonomia, as instituições e as oportunidades comerciais conquistadas desde 1808.
A Revolução Liberal do Porto
Em 1820, teve início em Portugal a Revolução Liberal do Porto. O movimento exigia uma Constituição, limitava os poderes absolutos do rei e defendia o retorno da Corte Portuguesa a Lisboa.
Pressionado, Dom João VI voltou para Portugal em 1821, deixando no Brasil seu filho, Dom Pedro de Alcântara, na condição de príncipe regente.
As Cortes Portuguesas começaram, então, a adotar medidas que reduziam a autonomia brasileira. Pretendiam subordinar novamente as províncias diretamente a Lisboa, extinguir instituições criadas no Rio de Janeiro e determinar o retorno de Dom Pedro a Portugal.
A tentativa de reverter as mudanças iniciadas em 1808 provocou forte reação no Brasil. Representantes políticos, proprietários, comerciantes e outros setores da sociedade passaram a defender a permanência do príncipe e a manutenção da unidade territorial.
A Câmara dos Deputados destaca que o processo de Independência ganhou força quando as Cortes adotaram atos que ameaçavam devolver o Brasil à antiga condição colonial. Câmara dos Deputados
O Dia do Fico
O primeiro grande ato de desobediência pública de Dom Pedro às determinações vindas de Lisboa aconteceu em 9 de janeiro de 1822, data que ficou conhecida como o Dia do Fico.
Um abaixo-assinado com cerca de 8 mil assinaturas solicitava que o príncipe permanecesse no Brasil. Diante da mobilização, Dom Pedro anunciou que não retornaria naquele momento a Portugal.
A decisão fortaleceu o movimento contrário às Cortes Portuguesas. Poucos dias depois, em 16 de janeiro, José Bonifácio de Andrada e Silva assumiu posição de destaque no governo organizado por Dom Pedro.
José Bonifácio passou a atuar na articulação entre as províncias, na manutenção da unidade territorial e na preparação política e militar para uma possível ruptura com Portugal. Por sua participação, ficou conhecido posteriormente como o "Patriarca da Independência".
Os acontecimentos que aceleraram a separação
O ano de 1822 foi marcado por uma sequência de decisões que tornaram a separação cada vez mais provável.
Em fevereiro, foi criado o Conselho de Procuradores, com o objetivo de ampliar a articulação entre o governo do Rio de Janeiro e as diferentes províncias. Em maio, Dom Pedro recebeu o título de Defensor Perpétuo do Brasil.
No dia 3 de junho, foi convocada uma Assembleia Constituinte para elaborar uma Constituição própria para o Brasil. Em agosto, foram publicados manifestos dirigidos aos brasileiros e às nações amigas, apresentando as razões políticas da resistência às decisões portuguesas.
Em 14 de agosto, Dom Pedro viajou para São Paulo, buscando resolver conflitos políticos na província e ampliar o apoio ao seu governo.
Enquanto o príncipe estava fora do Rio de Janeiro, Dona Leopoldina assumiu a regência.
A participação decisiva de Dona Leopoldina
Maria Leopoldina da Áustria teve uma atuação fundamental no processo de Independência. Além de princesa, era uma mulher com formação política e científica, que acompanhava atentamente os acontecimentos na Europa e no Brasil.
No dia 2 de setembro de 1822, Dona Leopoldina presidiu uma reunião extraordinária do Conselho de Estado. Os participantes analisaram novas determinações enviadas pelas Cortes Portuguesas, que anulavam decisões tomadas no Brasil e ordenavam o retorno de Dom Pedro.
O Conselho recomendou a ruptura imediata com Portugal. Dona Leopoldina assinou a ata e enviou ao príncipe as informações, acompanhadas de uma carta pessoal. José Bonifácio também encaminhou mensagens alertando para a gravidade da situação.
A Biblioteca Nacional destaca que esses documentos foram entregues a Dom Pedro durante seu retorno de uma viagem pela província de São Paulo. Biblioteca Nacional Digital
O 7 de setembro de 1822
No dia 7 de setembro, Dom Pedro e sua comitiva estavam próximos ao riacho Ipiranga, em São Paulo, quando receberam as mensagens enviadas do Rio de Janeiro.
Após tomar conhecimento das novas ordens portuguesas e das recomendações do Conselho de Estado, o príncipe anunciou o rompimento político com Portugal. O episódio entrou para a história como o "Grito do Ipiranga" e passou a ser representado pela expressão "Independência ou Morte".
Aquele momento tornou-se o marco oficial da separação, mas não encerrou o processo. A notícia ainda precisava chegar às diferentes regiões, conquistar apoio político e vencer a resistência das tropas portuguesas instaladas em várias províncias.
Em 12 de outubro de 1822, data em que completava 24 anos, Dom Pedro foi aclamado imperador do Brasil. No dia 1º de dezembro, ocorreu sua coroação como Dom Pedro I.
O Brasil independente nasceu, portanto, como uma monarquia constitucional, diferentemente de grande parte das antigas colônias espanholas na América, que se organizaram como repúblicas.
A Independência também foi conquistada nos campos de batalha
Durante muito tempo, a Independência foi apresentada como uma separação pacífica. Contudo, ocorreram conflitos armados em diferentes pontos do território.
Tropas portuguesas resistiram principalmente na Bahia, no Maranhão, no Piauí, no Pará e na região da Cisplatina. A consolidação do novo país exigiu a organização de forças terrestres e navais, além da mobilização de moradores das províncias.
No Piauí, a Batalha do Jenipapo, ocorrida em 13 de março de 1823, tornou-se um dos confrontos mais simbólicos do período. Moradores, vaqueiros, agricultores e combatentes enfrentaram forças portuguesas mais bem treinadas e equipadas. Registros reunidos pelo Senado Federal também apontam a presença de tropas cearenses na mobilização contra o avanço português. Senado Federal
Na Bahia, os combates se prolongaram até 2 de julho de 1823, quando as tropas portuguesas deixaram Salvador. Por isso, o 2 de Julho é celebrado pelos baianos como a data da Independência do Brasil na Bahia.
O Maranhão aderiu ao Império em 28 de julho de 1823, enquanto o Pará formalizou sua adesão em 15 de agosto do mesmo ano. Esses acontecimentos mostram que o novo país foi sendo consolidado de maneira gradual e encontrou diferentes níveis de resistência nas províncias. Senado Federal
Mulheres na luta pela Independência
A construção da Independência também teve a participação de mulheres que desafiaram as limitações impostas pela sociedade da época.
Além da atuação política de Dona Leopoldina, a história registra nomes como Maria Quitéria de Jesus, Joana Angélica e Maria Felipa de Oliveira.
Maria Quitéria participou diretamente dos combates na Bahia, ingressando nas forças favoráveis à Independência em uma época na qual as mulheres não podiam fazer parte oficialmente do Exército.
Joana Angélica, religiosa do Convento da Lapa, foi morta durante a invasão de soldados portugueses ao convento, em Salvador, em fevereiro de 1822. Sua morte tornou-se um dos símbolos da resistência baiana.
Maria Felipa, mulher negra e moradora da Ilha de Itaparica, é lembrada por sua participação na mobilização contra as forças portuguesas. Sua trajetória representa a presença de mulheres negras e das camadas populares no processo de luta pela Independência.
O Governo da Bahia reconhece Maria Quitéria, Maria Felipa e Joana Angélica entre os personagens centrais da memória das lutas pela independência no estado. Governo da Bahia
Negros, indígenas e trabalhadores também fizeram parte da história
A Independência não foi construída apenas nos palácios, gabinetes ou quartéis. Pessoas negras livres e escravizadas, indígenas, trabalhadores urbanos, marinheiros, artesãos, lavradores e sertanejos também participaram das mobilizações e dos combates.
Muitos enxergavam no rompimento com Portugal uma possibilidade de conquistar melhores condições de vida e ampliar direitos. Entretanto, a separação política não eliminou as profundas desigualdades existentes.
O Brasil continuou sendo uma sociedade escravista. A escravidão somente seria formalmente abolida em 13 de maio de 1888, 66 anos depois da Independência. A participação política também permaneceu limitada, e grande parte da população continuou afastada das decisões do Estado.
Assim, a Independência representou uma transformação fundamental, mas não resolveu imediatamente os problemas sociais, econômicos e políticos construídos durante mais de três séculos de colonização.
A Constituição de 1824
Depois da separação, o novo país precisava organizar suas instituições. A Assembleia Constituinte iniciou seus trabalhos em 1823, reunindo representantes das províncias para discutir a primeira Constituição brasileira.
As divergências entre os deputados e Dom Pedro I aumentaram ao longo daquele ano. Em novembro de 1823, o imperador dissolveu a Assembleia. A primeira Constituição do Brasil foi outorgada por Dom Pedro I em 25 de março de 1824.
O texto estabeleceu a monarquia hereditária e criou quatro poderes: Executivo, Legislativo, Judiciário e Moderador. Este último era exercido pelo imperador e lhe garantia ampla influência sobre o funcionamento das instituições.
A Constituição de 1824 permaneceu em vigor durante todo o período imperial, até a Proclamação da República, em 1889. Com aproximadamente 65 anos de vigência, foi a Constituição mais duradoura da história brasileira. Senado Federal
O reconhecimento de Portugal
A declaração de 1822 e a vitória sobre as tropas portuguesas não produziram um reconhecimento internacional imediato.
Portugal reconheceu oficialmente a Independência por meio do Tratado de Paz e Aliança, assinado em 29 de agosto de 1825. As negociações tiveram mediação britânica e envolveram interesses políticos, comerciais e financeiros.
Como parte dos acordos, o Brasil assumiu o pagamento de 2 milhões de libras esterlinas a Portugal, utilizando recursos obtidos por empréstimo junto à Grã-Bretanha. O reconhecimento, portanto, trouxe também consequências para a formação da dívida externa brasileira. Arquivo Nacional
A partir do reconhecimento português e da ampliação das relações diplomáticas, o Brasil consolidou sua posição como país independente no cenário internacional.
A imagem que se tornou símbolo
A cena mais conhecida da Independência é a pintura "Independência ou Morte", de Pedro Américo, que apresenta Dom Pedro montado a cavalo, erguendo a espada diante de soldados às margens do Ipiranga.
A obra, entretanto, não foi produzida em 1822. Ela foi concluída em 1888, 66 anos depois do acontecimento, em Florença, na Itália.
A tela mede aproximadamente 4,15 metros de altura por 7,60 metros de largura e está exposta no Museu Paulista da Universidade de São Paulo, conhecido como Museu do Ipiranga. A pintura foi encomendada durante o governo de Dom Pedro II e ajudou a construir a imagem heroica que se popularizou nos livros, monumentos e cerimônias cívicas. Museu da Cidade de São Paulo
Por ter sido produzida décadas depois, a obra deve ser compreendida como uma interpretação artística e simbólica, não como um registro visual exato do que aconteceu no dia 7 de setembro.
O 7 de setembro como data nacional
O 7 de setembro tornou-se uma das principais datas do calendário cívico brasileiro. A Lei nº 662, de 6 de abril de 1949, reconheceu oficialmente a data como feriado nacional. A legislação atualmente inclui o Dia da Independência entre os feriados celebrados em todo o território brasileiro. Presidência da República
Em diferentes cidades, a data é marcada por desfiles, apresentações escolares, solenidades, manifestações culturais e atividades educativas. Esses momentos contribuem para preservar a memória histórica e estimular a reflexão sobre os direitos e deveres de cada cidadão.
Independência como compromisso permanente
Celebrar a Independência do Brasil é reconhecer a importância da soberania nacional e homenagear todos aqueles que contribuíram para a construção do país.
Também é uma oportunidade para compreender que a independência não se limita à separação política ocorrida em 1822. Ela se fortalece diariamente por meio da democracia, da educação, da cidadania, da justiça social, do respeito às diferenças e da participação popular.
Conhecer a história permite valorizar as conquistas alcançadas, reconhecer as desigualdades que permaneceram e compreender os desafios que ainda precisam ser enfrentados.
Mais de dois séculos depois do Grito do Ipiranga, o Brasil continua construindo sua independência. Essa construção acontece quando os direitos são respeitados, quando a população participa das decisões públicas e quando União, estados e municípios trabalham para garantir dignidade, oportunidades e qualidade de vida para todos.
Neste 7 de setembro, Amontada celebra a história, a diversidade, a cultura e a força do povo brasileiro. Que a Independência continue sendo símbolo de união, responsabilidade, cidadania e compromisso com um país cada vez mais justo, democrático e solidário.